Quando olho para evolução da cena da arte contemporânea, me sinto assistindo algum esporte complexo sem nenhum conhecimento das regras. Não sei quem é o craque, definitivamente não sei para onde a bola está indo, não tenho exatamente certeza do que é ou não permitido. E quando você acha que está começando a entender, acontece uma jogada inesperada e nada mais faz sentido.

Como em tantos campos, a tecnologia se infiltrou no cenário da arte contemporânea. Então, quando pensava que estava começando a entender Tracey Emin, Ai Weiwei, Nicholas Hlobo, Nandipha Mntambo, o mundo da arte vem e faz uma jogada em forma de algoritmo.

Eu gosto de pensar que não sou analfabeto quando se trata de arte, mas se me perguntar sobre programação ou Java, dá tela azul. Contanto que eu possa abrir meus e-mails e postar instastories, o resto tá de boa. É como aquele velho ditado dizendo – “Se você ama alguma coisa, não descubra como ela é feita“. Mas, agora, a língua estrangeira da programação se infiltrou na minha perfeita zona de conforto da criatividade, e eu talvez precise começar a aprender algumas regras.

Tracey Emin – I think about sex most of the time, 2003

Assim como todo bom pesquisador do século XXI, fui direto ao Google (ironicamente usando seus complexos algoritmos). Ele me contou que um algoritmo era um “conjunto de regras, ou um processo usado em cálculos ou outras operações de solução de problemas”. O que na real não me ajudou muito. Mas o que importa é que nos tornamos uma sociedade que está mais ligada aos nossos dispositivos do que talvez pudesse ter sido previsto.

Fiquei pensando muito no vídeo produzido em 2015, do Otis Johnson, que tinha acabado de sair da prisão depois de 44 anos. Nessa curta entrevista com a Al Jazeera, ele sai do metrô na Times Square e fica imediatamente perplexo com o que ele pensou que era todo mundo falando sozinho, com fios ligados nas orelhas, como se fossem agentes da CIA, mas as pessoas estavam só usando seus celulares. É o tipo de reflexão que faz a gente pensar sobre como a nossa noção de realidade está se transformando.

Cada passo mapeado pelo Watch, cada tweet durante a madrugada, cada caloria contada ou música baixada está sendo controlada por aquela linguagem terrivelmente estranha de código. Comuns, como eu, vêem 0s e 1s, e muitos / e? e * e [] – no entanto, a próxima geração de artistas contemporâneos está vendo infinitas possibilidades.

Tipo a Laurie Frick, uma artista de Nova York, que usou vários rastreadores de dados para criar representações em larga escala do ‘eu’. Em 2012, usando o aplicativo Moodjam, ela acompanhou suas emoções e humores ao longo de vários dias e depois criou trabalhos como o abaixo, como articulações visuais desses dados. Logo de cara, parece com os minimalistas de meados do século, tipo Sol LeWitt, ou Ellsworth Kelly. Tem também o SELECTED/DELETED/POPULATED/ISOLATED do Carly Whitaker de Johannesburgo, que usa dados coletados para considerar a representação de “outros” e usa o Photoshop para distorcer imagens de mapa do Google para criar conexões entre cidades no hemisfério sul. Cada um desses exemplos reflete sobre como os dados digitais podem levar à abstração ou reorganização de informações.

Laurie Frick – Sleep patterns, 2012

E aí, eu pergunto, a nova evolução tecnológica artística redefiniu o abstrato?

Agora que a era digital permeou grande parte de nossa atividade diária, como nós consumidores de arte, consideramos sua entrada nas galerias? Uma grande parte desta nova era da arte parece refletir no digital como disruptivo. Vemos as interfaces dos bastidores da world wide web ou realidades virtuais distorcidas – os espaços relativamente confortáveis ​​do Google, Facebook e Instagram são trocados pelas profundezas abstratas mais estranhas ​​da Internet. Os artistas parecem estar brincando com a própria ‘fisicalidade da arte’ – algoritmos são usados ​​para criar esboços que parecem feitos pela mão humana (Niche Constructions do Jon McCormarck), ou trabalhos de vídeo abstratos mais fragmentados (como os de Casey Reas, ou Diego Collado), ou brincar com as tecnologias em desenvolvimento de realidade virtual e aumentada (Blocked Content, do coletivo russo Recycle Group ou o trabalho de Paul McCarthy e Christian Lemme).

Parte do que a era do algoritmo significa é que o digital é inescapável. O acesso ao digital à internet é cada vez mais como água e luz. E, à medida que os artistas começam a considerar as complexidades dessa tecnologia onipresente e opaca, nós, como espectadores, precisamos estar preparados para enfrentar um novo abstrato. À medida que começamos a nos adaptar a um novo abstrato, pergunto: “daqui vamos para onde?”