O Afrofuturismo pode ser creditado a grandes nomes literários como Octavia Butler e a artistas visuais como Basquiat. Esses artistas usaram suas midias para explorar um mundo revolucionário onde personagens negros controlavam seus próprios destinos. Músicos do final do século XX como Sun Ra, George Clinton e Afrika Bambaataa combinaram o espaço, alter egos e cultura negra em uma estética de moda e musical que era pioneira na época. Até artistas que não são associados necessariamente com o Afrofuturismo costumavam mergulhar nessa outra realidade para construir suas imagens.

Sun Ra

Vejamos, por exemplo, Michael Jackson: é puro Afrofuturismo. Em “Rock With You”, ele brilhava numa roupa metálica; no vídeo de “Scream”, junto com a Janet Jackson, rolava uma viagem espacial desafiando a gravidade. Até o moonwalking tinha uma coisa meio “Jetsons”, com o Michael flutuando para trás como se não se importassem as leis da física.

Enquanto o Afrofuturismo surgiu como uma maneira literária de lidar com as questões da Diáspora Negra criando um novo futuro, esse conceito fantástico seguiu seu caminho até as estéticas visuais de muitos nomes da moda.

Em sua estética, Grace Jones personificou os ideais do Afrofuturismo. Com adereços de cabeça elaboradíssimos, olhos dramáticos e silhuetas exageradas, ela cria uma representação alternativa da moda e da feminilidade negra. Ao reimaginar as possibilidades da identidade negra e da governança sobre nossos corpos e mentes, o Afrofuturismo foi parte dessa narrativa. Jones se apropria das suas escolhas de expressão quando o assunto é seu corpo e sua sexualidade. Além de vislumbrar um futuro sem escravidão mental e trauma físico, o Afrofuturismo fala sobre abraçarmos nossa expressão negra e existir em uma utopia que eventualmente poderá se tornar realidade.

Grace Jones

Talvez Janelle Monáe tenha sido responsável por apresentar o Afrofuturismo para as gerações atuais. Quando seu personagem andróide escapa por pouco da destruição por se recusar a se conformar, numa busca de uma liberdade de existir, traça paralelos com o clima social atual para os negros. Mas além dessa história da era espacial, Monáe usou seu estilo para levantar a discussão sobre a percepção pública e sua conexão com as normas de gênero pretas. Muitas vezes com trajes formais masculinos, Monáe apresenta um olhar que desafiou a definição dos meios de comunicação mainstream do que é ser bonito e feminino.

Aí se abriu o caminho para outros artistas negros, como Jaden Smith, para criarem um novo mainstream sobre fluidez de gênero na moda. Enquanto em outras culturas os padrões unissex já estão incorporados, ele recebeu inúmeras críticas ao discutir as normas de gênero usando saias e vestidos. Escolher a conexão entre sua identidade e sua expressão da individualidade é uma liberdade ainda a ser conquistada por negros, muitas vezes por causa de rígidas percepções interculturais.

Janele Monáe

Muitas cenas do Lemonade da Beyonce foram rotuladas como representações de um futuro afrocêntrico. Vemos um mundo que é povoado apenas por mulheres negras usando seus cabelos naturais, comendo em árvores e campos abertos, e trabalhando em grupo para coletar alimentos.

Aqui no Brasil, Ellen Oléria, negra e assumidamente homossexual, canta a raça negra no seu álbum Afrofuturista. Ela enxerga em sua música a possibilidade de lutar por direitos. Defende que tudo é uma questão política. Com esse trabalho ela faz uma conexão com os antepassados para lidar com o presente misógino, classicista e machista.

Ellen Oléria

Apesar desses exemplos mais recentes não estarem ligados à viagens espaciais ou cenários fantásticos, a idéia de uma cultura feminista afrocêntrica é uma realidade a ser construída. Imaginar essa sociedade onde os padrões negros de beleza não só são celebrados, mas também reverenciados fala sobre a falta de representação dessa dupla minoria na nossa realidade atual, e acaba soando tão fictício quanto a viagem no tempo ou alter egos. Essa civilização matriarcal, livre de expectativas ou conflitos, representa uma oportunidade para as mulheres negras se verem em posições de prestígio e poder em nossa versão do futuro.

De muitas maneiras, viver em paz e harmonia está tão distante da realidade presente para nós que o pensamento e a representação disso é Afrofuturística. A idéia de pessoas negras comungando com a natureza e encarnando os nossos próprios padrões naturais de beleza não passa de apenas um pensamento agradável em território Afrofuturista.

Solange

A moda mergulhou nesse idéia de reimaginar uma realidade para pessoas negras e evoluiu para um espaço onde não há fronteiras para a moda preta; nossos afros são um com as galáxias, nossos filhos são despreocupados e únicos, nossos homens e mulheres estão criando identidades individuais e vendo-se representados em todos os aspectos da sociedade. Muitas representações atuais do Afrofuturismo mostram modelos pretas vestindo estampas e silhuetas historicamente africanas. Fomos levados tão longe de uma cultura afrocêntrica que emular o traje de nossa herança compartilhada é a nossa versão de um futuro utópico.

A moda afrofuturista é a narrativa de nossas esperanças coletivas para o futuro, onde nossa representação é generalizada e temos a capacidade de nos definir. A tendência atual do Afrofuturismo na moda mostra que nossos sonhos mais loucos de um futuro negro são reconquistar uma conexão com nossos antepassados – para existir em um mundo com paz e cooperação. Trata-se de criar uma nova identidade e não a que foi dada (ou tirada) pela sociedade.