Costumava ser fácil ser cool (ou pelo menos fingir). Normalmente era só ter comportamento e gostos direcionados para a contracultura, seja para moda, música ou arte. E, também, era preciso negar tudo que a cultura popular adotava. Mas como o próprio nome diz, a contracultura precisa de uma cultura a ser contrariada. A existência do cool depende de uma cultura pop para se rebelar contra. Mas, infelizmente (para o cool), hoje temos uma experiência de entretenimento cada vez maior e mais individualizada. Estamos perdendo qualquer sentido de uma cultura pop padronizada. Sem cultura pop, é impossível ser cool.

Em 2013, o NYT tentou, com o artigo “What It Means to Be Popular (When Everything Is Popular), traçar um panorama de como a cultura popular está se desenhando. E graças aos sistemas de métricas cada vez mais avançados, nós sabemos quase que instantaneamente se alguma coisa é popular com qualquer grupo demográfico imaginável. Mas com tantos arranjos de dados possíveis, será que algum resultado ainda é real? Como o próprio artigo pontua, “quando tudo é popular em alguma medida, é impossível acompanhar tudo que é popular”.

Você sabia que a música “Mi Gente” de J Balvin (???) + Willy William (???) hoje é a mais tocada do mundo no Spotify? Você sabe do que se trata a hashtag “HappyEXOLDay” que está no trending topics hoje (sexta, 04 de agosto)? Tem muita coisa rolando no mundo do entretenimento para alguém ser capaz de juntar tudo e ainda por cima se rebelar ativamente contra ele.

Nós podemos assistir qualquer programa de TV ou qualquer filme quando quisermos. Com um clique podemos “descobrir” artistas que menos de mil pessoas ouviram, e, para criar nossos estilos individuais, podemos criar boards no Pinterest que se alimentam de fontes infinitas de inspiração. Mas todas essas experiências são absolutamente pessoais. Com exceção das notícias urgentes, esportes ao vivo e premiações, não existe nada que a sociedade como um todo experimente e processe em tempo real. Breaking Bad, uma das séries mais assistidas de todos tempos, em seu penúltimo episódio, teve 6.6 milhões de telespectadores no momento que foi televisionado – ou menos de 1% da população dos EUA.

E mesmo quando as coisas parecem atingir números realmente populares, elas não são relevantes o suficiente para nos rebelarmos. Ninguém se importa se você assiste ou não Game of Thrones, ou se você não compra na Forever 21. O cool, para sobreviver, tem que evoluir, ou pelo menos a nossa percepção dele.

O artigo, de 2013, tende a ser otimista quando fala que está tudo bem com essa “micro-popularidade”. Ela permite curtidas em tempo real que servem como benchmark para o sucesso. Hoje falamos cada vez mais sobre micro-influenciadores e voltamos à máxima mais piegas de todas: ser você mesmo é o mais cool que você pode ser. Mas, enquanto assistimos todo mundo tentando ser muito cool diariamente no stories, o que a gente entende é que ser cool, na verdade, é uma grande bobagem.

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E já que você chegou até aqui, só um último recadinho:
Em outubro teremos turmas do curso The Death of Cool em SP, BH e Rio. É uma imersão de uma semana em coolhunting e pesquisa de tendências. Aqui tem o programa completo 🙂

– Belo Horizonte: 02 a 07 de Outubro – Guaja
– Rio de Janeiro: 16 a 21 de Outubro – Nex Coworking
– São Paulo: 23 a 28 de Outubro – Casa Madalena